Devocional

Os Pobres de espírito, Bem Aventurados

Deles é o Reino de Deus

O que essa Bem-aventurança não significa

Jesus disse que os “pobres de espírito” são abençoados, porém, não significa que por ser pobre materialmente alguém possa ser feliz, como se a pobreza material fosse em si uma virtude.

Se assim fosse, então toda ação social com intuito de ajudar quaisquer famintos e miseráveis, a fim de tentar aliviar seus encargos, seria uma atitude incoerente e anticristã. Isso significaria afastá-los daquilo que lhes traz para mais perto de Deus e da Sua felicidade. Se fosse esse o significado, não seria correta a tentativa de aliviar aqueles que passam fome em países devastados pela guerra. Não seria justo alojar os refugiados que ficaram desabrigados pelas calamidades naturais. Não poderia haver programas sociais dentro das nossas igrejas. Não poderia haver orfanatos, hospitais ou missões urbanas. Nenhuma destas coisas seria correta se este verso ensinasse que a Bem-aventurança espiritual é o resultado da pobreza material.

Apesar disto, não devemos perder de vista o fato de que há, de modo geral, entre os desfavorecidos economicamente um profundo e mais intenso desejo de Deus e humilde confiança nele. Aqueles que sofrem de perturbações sociais não têm ninguém em quem possam colocar a sua confiança a não ser no Senhor. Jesus não chamou bem-aventurados os pobres de espírito no sentido de que aqueles que experimentam a falta de coragem, vitalidade e entusiasmo são mais agradáveis a Deus do que outros. Não é esta uma aprovação à depressão, à preguiça ou à falta de entusiasmo.

Jesus não está dizendo que o introvertido, de personalidade passiva é mais espiritual do que o tipo extrovertido e agressivo. Nem está Jesus dizendo que a pessoa com baixa autoestima ou baixa autoimagem é mais espiritual do que qualquer outra pessoa.

O que significa essa Bem-aventurança

Sabemos que Jesus não estava preocupado aqui com a pobreza financeira e que ele não estava recorrendo à analogia da miséria material para lançar em mente sua mensagem. Há duas palavras gregas, normalmente usadas para se referir aos pobres: (1) penichros, usada em Lucas 21 para a viúva que teve apenas duas pequenas moedas de cobre (ela era pobre, mas pelo menos tinha alguma coisa) e (2) ptochos, a palavra usada aqui, significa totalmente desamparado, sem meios de sobrevivência, completamente dependente de alguém para seu sustento.

No Antigo Testamento, os pobres financeiramente e miseráveis eram impotentes e dependentes. Sendo materialmente desfavorecidos eram frequentemente explorados pelos ricos e poderosos. Isso exigiu que confiassem unicamente em Deus a necessidade de proteção e sustento. Mas aqui, no entanto, Jesus se refere ao espírito e não ao bolso, que é pobre.

Em outras palavras, tal como aquele que está sem dinheiro é totalmente dependente de Deus para o sustento físico, assim também aquele que é sem mérito é totalmente dependente de Deus para o sustento espiritual. Jesus estava afirmando que é abençoada a pessoa que diz: “Eu não tenho um centavo de mérito, nenhuma justiça com a qual eu poderia comprar a admissão no reino de Deus.” Ou: “Eu sou tão pobre que não tenho capacidade de pagar nenhum centavo pela ‘Graça’ de Deus”. Pobreza de espírito, então, é o reconhecimento da falência espiritual, a confissão consciente de absoluta miséria espiritual diante de Deus.

O pobre de espírito é a pessoa que sente profundamente em seu coração que ele é miserável e se aproxima de Deus sem nenhum mérito. Esta é a pessoa que o banco da justiça de Deus oferece salvação através da sua graça.

“Os sacrifícios para Deus são o espírito quebrantado, um coração quebrantado e contrito, não desprezarás, ó Deus” (Salmo 51.17).

“Assim diz o Senhor: Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem se glorie o forte na sua força; não se glorie o rico nas suas riquezas. Mas o que se gloriar glorie-se nisto: em me conhecer e saber que eu sou o Senhor, que faço beneficência, juízo e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o Senhor” (Jeremias 9.23-24).

O caminho para ascensão no reino dos céus está em mergulhar em nossa condição de pobreza espiritual, confessando nossa miséria e pecados à espera, com humildade, da misericórdia de Deus. Porque esta é a primeira Bem-aventurança? Porque a falência de espírito é o fundamento de todas as outras virtudes. É só quando nós reconhecemos que somos vazios que então Deus pode nos encher com a sua justiça. Alguém afirmou: “nós não somos capazes de receber graça. Aquele que está inchado, com um parecer da autossuficiência não é apto para Cristo. Ele já está cheio. Se a sua mão está cheia de pedras, não pode receber o ouro. O copo é primeiro esvaziado antes de receber o vinho. Deus em primeiro lugar esvazia o homem de si mesmo, antes de derramar o vinho precioso da sua graça”.

Além disso, enquanto não formos pobres de espírito, Cristo nunca será precioso para nós. Pobreza de espírito é o sal e o tempero, o molho que faz Cristo saborear doçuras para a alma. Quando um homem se vê quase ferido de morte, como será precioso o bálsamo do sangue de Cristo sobre ele! “Como dizes: ‘Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta’, e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu, aconselho-te que de mim compres ouro provado no fogo, para que te enriqueças, e vestes brancas, para que te vistas, e não apareça a vergonha da tua nudez; e que unjas os olhos com colírio, para que vejas”. (Apocalipse 3.17-18). Veja o que diz Filipenses 3.3-8:

“Porque a circuncisão somos nós, que servimos a Deus em espírito, e nos gloriamos em Jesus Cristo, e não confiamos na carne. Ainda que também pudesse confiar na carne; se algum outro cuida que pode confiar na carne, ainda mais eu: Circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; segundo a lei, fui fariseu; segundo o zelo, perseguidor da igreja, segundo a justiça que há na lei, irrepreensível. Mas o que para mim era ganho, reputei-o perda por Cristo. E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo.”

Quanto à recompensa, “deles é o reino dos céus”. Note que Jesus usa o tempo presente “é” e não o tempo futuro “será”. Isso porque Jesus estava presente e o seu reino já havia se manifestado diante deles, apesar das aparências contraditórias. Apesar disso, ainda assim, existe uma consumação escatológica para a experiência de todo o reino voltada para os filhos de Deus.

Autor ~ Moisés Carneiro ~

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